Confrontos em Jacarta entre polícia e manifestantes em protesto contra militares

A polícia indonésia utilizou hoje canhões de água contra cerca de um milhar de manifestantes em Jacarta, que atiraram ‘cocktails’ Molotov aos agentes durante um protesto contra uma lei controversa que militariza o governo.

Confrontos em Jacarta entre polícia e manifestantes em protesto contra militares

Centenas de indonésios reuniram-se em frente ao parlamento de Jacarta, como têm feito regularmente desde que a câmara aprovou, há uma semana, a revisão da lei militar de 2004, que alarga o acesso dos militares em serviço às instituições governamentais.

Vestidos maioritariamente de preto, os manifestantes apelaram à revolução e tiveram momentos de confronto com a polícia, que lhes apontou canhões de água a partir dos relvados do parlamento, enquanto atiravam ‘cocktails’ Molotov.

“Temos um trauma muito profundo com a entrada das elites militares na vida civil. O exército indonésio está cheio de impunidade”, disse um dos participantes à agência espanhola EFE, sob a condição de não ser identificado.

Várias organizações de direitos humanos criticaram a reforma por reavivar práticas comuns durante a ditadura de Suharto (1967-1998), incluindo a conhecida ‘dwifungsi’ (“funções duplas”), segundo a qual os militares no ativo ocupavam cargos governamentais importantes.

A prática ‘dwifungsi’ foi abolida após a ditadura de Suharto.

A revisão alarga de 10 para 15 as instituições em que os militares no ativo podem ocupar cargos.

Trata-se das agências que gerem as medidas antiterroristas, a segurança das fronteiras, a segurança marítima, a gestão de catástrofes naturais e o Gabinete do Procurador-Geral.

Estas instituições vêm juntar-se à dezena de instituições em que os militares já podem exercer funções sem se demitirem ou reformarem, em setores como a defesa, a cibersegurança, a luta contra o narcotráfico ou o salvamento.

As alterações fazem parte de um reforço mais amplo do papel dos militares sob o governo de Prabowo Subianto, um general reformado que é Presidente desde outubro de 2024, depois de ter vencido as eleições com o apoio do antecessor, o popular Joko Widodo.

Prabowo, um antigo chefe das forças especiais acusado do rapto e tortura de opositores ao regime de Suharto, e de alegados crimes cometidos em Timor-Leste, nomeou 12 antigos militares para postos-chave no governo, mais do que os antecessores.

Os militares indonésios afirmaram na terça-feira que a controversa reforma “não pretende regressar ao passado sombrio”.

“Tenho de deixar claro que a revisão da lei militar não é um regresso à ‘dwifungsi'”, disse o diretor de informação do exército, Kristomei Sianturi, numa conferência de imprensa.

A medida provocou dias de protestos públicos em várias partes da Indonésia, a terceira maior democracia do mundo, com uma população de 280 milhões de habitantes.

PNG // SCA

By Impala News / Lusa

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